sábado, 9 de janeiro de 2021

rituais...

 



2º- 1976

momento de serenidade
nesta tarde de sol tardio
não é demasiado tarde
quando te olho sorrio

uma força dá-me asas
mesmo que tu não estejas
recordo quando me enlaças
desajeitadamente me beijas

a vida tem seus rituais
outrora tudo nos atraía
fazer amor um dos quais
abraços nenhum prescindia

assim o tempo vai, passou
o que nos une é sabermos
que não se perde nosso voo
amor, seria amargo perdermos

subitamente invade desejo
só nós sabemos o porquê...
mergulhamos num terno beijo
no nosso olhar o amor se vê.

amarmo-nos ainda faz sentido
embora sentimento já visto
mas é como um livro já lido
ou filme a que de novo assisto.

natalia nuno




retrato...




Hoje achei um caderno das minhas primeiras quadras, que iniciaram faz muitos anos...
não sei se vou ter paciência de as colocar todas neste Blog, mas ao mesmo tempo sinto por elas carinho, dado que fazem parte do que durante anos escrevi só para mim. Vou hoje iniciar, colocando algumas que datam de 1976.

1º-1976

olho o retrato e vejo
o compromisso d'amor
ainda sinto o desejo
mas olho-o com pudor

fico imóvel olho o retrato
lembro tudo acontecido
o retrato é o relato
dum amor q' está esquecido

embrulhada nos sonhos
olho o retrato com saudade
estamos nele tão risonhos
era grande a felicidade

ali tão perto um do outro
retrato que eu olho agora
hoje este amor está morto
tão bela história d'outrora.

natalia nuno




sonho...




chamei ao rio, rio de prata
que olhava desde a aurora
hoje saudade dele me mata
ao recordá-lo nesta hora

ouvia nas margens rouxinol
nas águas cristais coloridos
um arco-íris e a luz do sol
deslumbravam meus sentidos

o salgueiro está na lembrança
lágrimas suas caindo ao rio
surge o sonho de criança 
banhando-me cheia de frio

o rio espelhava meu rosto
vinha o sol me acariciava
o pé na água já tinha posto
sorria-te logo à chegada

levavas meu segredo ao mar
beijos não lembro pra quém
alguém que eu supunha amar!
se lembro, não digo a ninguém

natalia nuno
imagem da amiga Manuela Gaspar
o rio da nossa aldeia o Almonda









sexta-feira, 20 de novembro de 2020

um rol que não finda....




um fio de luz bem estreito
entrava p'lo nosso telhado
levavas-me dentro do peito
tua ausência era meu fado

se ressurgem ou apagam
lembranças a toda a hora
logo os olhos se alagam
e também a alma chora!

passam ocultas aos olhos
as coisas boas da vida...
dela só restam abrolhos
que vida esta feita de lida!

ando s/ tempo nem jeito
vida é uma teia sombria
aconchego-me ao teu peito
que o amor nunca sacia...

como se fosse adolescente
aproximar-me mais quisera
desse teu amor ardente
que não passou de quimera.

se com lábios não te disse
o que tanto, tanto te amei
em teus olhos ainda me visse
se com eles me enamorei.

e no que nos resta ainda
que guardo só pra mim
é um rol que não finda!
com lembranças sem fim

natalia nuno





sábado, 14 de novembro de 2020

outono na alma...

                                                                 


                                fui apanhar as estevas

logo murcharam na mão
coração onde me levas?
certezas elas me dão...

entranço na alquimia
o meu chegar ao ocaso
mente feliz, que dia a dia
à felicidade dá aso...

apanhei também alecrim
que viçoso me olhou
quem dera saber de mim
ao que vim, e pra que estou!

vim ver cair as primeiras folhas
«o cheiro das estevas e da urze»
indago o sentido c/ que me olhas
vem o vento ao ouvido me zurze

levo a rebeldia no olhar
violento é o punho dos dias
contra a morte, que há-de chegar!
levando todas as alegrias.

chego-me ao pé da lavanda
cálido murmúrio no coração
beijos o meu amor me manda
serão sonho ou talvez paixão.

o outono da minha tristeza
sento-me ao lado dos aromas
o coração singelo sem certeza...
sou tua luz, por quem me tomas?

amor, já me levas ao sonho
com olhos d'água no horizonte
apenas  a esperar me ponho
no desejo de beber da tua fonte.

natalia nuno

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

trovas...ardia em nós o desejo



em teus olhos abrasei
ía a tarde no seu esplendor
nessa paixão me deixei
incendiada nesse amor

o ramo firme da roseira
deu rosas até mais não
ao ver-me ali à tua beira
fez prévia premonição

a doce cadência da brisa
insinuado tremor da água
ao ver que a gente precisa
de esquecer a dor e a mágoa

deter o tempo fugitivo
e o aroma ténue da flor
neste sonho enquanto vivo
é tudo o quero, amor!

havia febre no nosso beijo
consumíamo-nos a olhar
ardia em nós o desejo...
entrelaçados no mesmo pulsar

recordam bem os pinheiros
grande a dor do q' não retorna
nossos beijos, os primeiros
dados nessa tarde morna

subitamente... se envelhece!
desassossego a tarde espelha
ai se saudade me trouxesse
teu mel doce quanto o d' abelha


natalia nuno 
rosafogo












domingo, 1 de novembro de 2020

quimera...




vestido com seu aroma
deixei à beira do caminho
aquele por quem me toma
sempre de si bem pertinho

ouvi o coração silvestre
já pincelado de lua...
com as estrelas vieste
rogando que eu fosse tua

branca flor da cerejeira
com sua sensualidade
pirilampos á nossa beira
tudo hoje me dá saudade

fechei os olhos pra cheirar
a frescura do tomilho
recordo, bom que foi amar
entre a folhagem do milho

e o desvelado salgueiro
recorda que tanto amei
amei o teu ser inteiro
ao teu feitiço me agarrei

fica o mel no teu olhar
no meu da terra o verde
és razão do meu sonhar
meu desejo, minha sede

neste desejo enraizado
apago a amargura vivida
deixo amor ao teu cuidado
a quimera desta vida...

natalia nuno