sábado, 31 de agosto de 2013

à saudade me dou...

 
 
atravessam-se em mim rios
num itenerário de esperança
passaram tantos solestícios
desde que eu era criança ...
 
meus olhos estão vencidos
p'las m' mãos escorre a água
mastigo sonhos feridos
perdida em mim trago mágoa
 
já meus dias envelhecem
noites chegam à mesma hora
mas meus dedos já não tecem
poema onde a solidão chora.
 
meus pés ainda caminham...
se há dois braços  a receber-me,
ao encontro dos meus vinham
olhos que brilhavam ao ver-me
 
guardo o verso só eu conheço
esqueço o tempo ele nos devora
afundo em teus braços adormeço
minha inquietação vai embora.
 
natalia nuno
rosafogo
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 

deixo pégadas...



que te fiz eu ó saudade?
que me segues pra todo lado
a lembrares-me a mocidade
não esquecer... é o meu fado.

anda o tempo a dizer
heras em mim enlearam
como podem elas crescer?
se meus sonhos acabaram.

cresce a urze e o alecrim
neste bendito chão...
na raiz que tenho em mim
também cresce a solidão.

sou desabrochar das folhas
trago flores no olhar
meu amor quando me olhas
sinto as correntes do a(mar).

nos meandros do caminho
deixei frescas as pégadas
quero encontrar teu carinho
em manhãs acordadas...

és o rio onde navego
e eu romanzeira em flor
meu fruto eu não te nego
navega em mim por favor.

és meu pão, meu fermento
eu seiva dos teus desejos
sê estrela do firmamento!
e vem cobrir-me de beijos.

anda a tarde pela colina
monte acima monte abaixo
quem me dera ser menina
reluzindo como um facho.

natalia nuno
rosafogo
2009

trovas soltas






sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Vôo...


ando à beira de explodir
trago o gesto adiado
tenho medo de cair
num caminho indesejado.

mais tarde ou mais além
quem sabe num de repente...
chega a notícia, que alguém
repousa eternamente...

piso a fronteira da vida
tocam os sinos por mim
subo a montanha indecisa
sem mais palavras por fim.

faço atalho ao inverno
levo saudade da primavera
o outono um inferno...
verão coração n' espera.

embarco vou paciente
deixo rastro de andorinha
se um dia me senti gente?!
sinto-me agora sozinha.

natalia nuno
rosafogo




quarta-feira, 28 de agosto de 2013

tocam os sinos...



em certas tardes os sinos
entregam-se às badaladas
fazem-me lembrar os trinos
p'las tardes nas ramadas...

boca a boca se desdobra
qualquer notícia na aldeia
todos metem mãos à obra
quando a vontade acendeia

apanham figos e azeitona
pés descalços, verde ramo
nada nela se  abandona...
nesta m' aldeia que eu amo.

esquece-se calor das horas
e a poeira das estradas...
regresso a casa sem demoras
já se calam as badaladas...

nesta noite onde me dou
à lembrança que me habita
um pássaro em mim poisou
e no meu coração se infiltra

natalia nuno
rosafogo

trovas de 2006







terça-feira, 27 de agosto de 2013

ao Alentejo...


 
 
crescem livres as papoilas
p'lo Alentejo são sua graça
e os cantos das moçoilas
dão alegria ao que passa...
 
Alentejo do pão é fonte
esperança no amanhã
do teu povo és horizonte
não queres ser esperança vã
 
as cisternas têm vinho
melhor não há no mundo
és celeiro e és moinho
no teu silêncio profundo.
 
o azeite em ti nasceu
como a dizer aqui estou
a terra em ti tremeu...
aos teus alguém a roubou.
 
Abril em ti fez história
a canção vila morena
que não passe da memória
alma embaciada faz pena.
 
natalia nuno
rosafogo
trovas de 1988
 


soltas...IV



levo meu barco a acreditar
que amanhã será outro dia
sempre nova chama a atear
saber-me sol luz e alegria...

tudo é incerto como vento
que vai ateando fogueira
trago no meu pensamento
o fogo duma vida inteira

meu coração, uma floresta
onde cantam passarinhos
nem sempre o trago em festa
por que a vida tem espinhos

salgueiro é verde e frondoso
põe as raízes dentro do rio
também o viver é gostoso
dando-me em amor o alivío.

solidão tenho a do pastor
e a paciência é de antanho
assim vou esquendo a dor
sem medida e nem tamanho

natalia nuno
rosafogo

inquietação...


já encurtam meus dias
como hei-de esquecer
se trago as mãos frias
dúvida no peito a bater

assim minha pequenez
é réstea de sol ardendo
sem novo dia talvez...
a vida e morte vivendo

a distância se aproxima
do príncipio o fim existe
se à vida trago estima
a morte em mim persiste.

no silêncio dos meus dias
só quero paz e sossego
sem glória nem honrarias
logo ao destino m' entrego.

natalia nuno
rosafogo

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

salpico de onda...



passou uma eternidade
e a vida me dá sinais
um beijo dado é saudade
um outro nunca é demais

já são horas de deitar
de deitar contas à vida
acostumei-me a gostar
me chames tua querida

a certas horas do dia
logo que a sombra cai
meu olhar te acaricia
ao encontro do teu vai

em cada salpico de onda
que me traz o teu amar
é como a lua redonda
que não deixa de brilhar

da solidão faço hino
lágrima é lamento breve
meu coração pequenino
grande amor p'lo teu teve

sem que o vento adivinhe
por ele mando recado
para q' o amor não definhe
ou  me seja penhorado.

natalia nuno
rosafogo

trovas de 1988

trovas soltas...



parado meu coração...
assim ao tempo sujeito
é sonho ou ilusão?
já não há amor-perfeito!
 
 nascem no campo flores
lindas de qualquer jeito,
no peito trago eu amores
nenhum deles é perfeito.
 
trago na mão a lanterna
para o amor alumiar...
já que a esperança é eterna
vou-me deixando sonhar...

 os tempos estão mudados
têm pouco de verdade
sentimentos equivocados
já deles trago saudade.
 
sou cega contra a razão
mas amo com certa medida
gosto de ouvir o coração
traz-me a vida garantida.

natalia nuno
rosafogo

trovas de 1885...mês (?)
 
 
 

domingo, 25 de agosto de 2013

um livro aberto...



tenho um livro sempre aberto
é meu mundo a ele regresso
trago-o sempre por perto
são palavras o que lhe peço

uma recordação me atravessa
e se esgueira no meu peito...
de lá não sai inda que peça
traz-me o coração contrafeito

a vida que levo por diante
entre sorvos de saudade...
vou-a bebendo lentamente
assim amanheço na idade.

nos lábios sempre a sede
a sombra que me segue perto
um dia ao outro sucede...
a pouca distância o incerto.

natalia nuno
rosafogo




 





sábado, 24 de agosto de 2013

vidas simples.





o pai monta a bicicleta
até o equilíbrio conseguir
eu que sou tão inquieta
estou pronta pra partir...

desculpe, perdão, licença
todos os dias repetidas,
escola da vida imensa
tantas coisas aprendidas

com liçença cá se usa!
e obrigada sim senhor,
nesta minha aldeia lusa
de princípios e rigor...

todo o dia a mesma lida
pra que haja na mesa pão
filhos de boca apetecida
e pronta a pedir perdão

natalia nuno
rosafogo

2002/09



sexta-feira, 23 de agosto de 2013

alinhavo palavras rimando...


alinhavo palavras rimando
e vou respirando fundo
a esperança me vai deixando
e eu deixo  rimas ao mundo

deixo rimas à humanidade
vou palavras alinhavando
umas tristes ou de saudade
sempre o tempo ameaçando

rimas também são poesia
viciada nelas sou é verdade
para ti as deixarei um dia
e nelas minha saudade...

já que não conheço a razão
só Deus saberá o por quê...
de ser sempre a solução
para mim...rimar já se vê.

rimo eu, como se rezasse
ou pedisse a Deus perdão
é como se a alma calasse
o que falar  quer o coração

rimas ao mundo deixarei
em troca não peço nada
se nada trouxe nada levarei
cheguei gritando, parto calada.

natalia nuno
rosafogo



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

o silêncio do teu olhar


com carinhos apaixonados...
procuro teu corpo menino
tantos sonhos embalados
no meu coração peregrino.

do nosso amor apaixonado
lembro as manhãs de seda
o meu corpo ao teu colado
e os corações em labareda


és a quem de amor falaria
estivesses longe ou perto
no tempo que sobrou do dia
sempre de coração aberto...

recebo a cada instante
o silêncio do teu olhar
sou mulher ou sou amante?
levo o tempo a decifrar...

solta-se em mim emoção...
eu «Poeta» trago no peito
que apenas tem um senão
sonhar demais é  defeito

nos versos vou soluçando
lenço a rebate na estação
o combóio vai passando
gelado me deixa o coração

fomos o trigo por ceifar
seara de espigas doiradas...
somos fogo por atear
sonho dum conto de fadas.

natalia nuno
rosafogo

12/2007

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

trovas ao desafio



minha participação nos TROVADORES de Sílvia Mendonça...nos Poetas e Escritores do Amoe e da Paz
dê do talento as provas
importa é que se vejam
venham as boas novas
que apreciadas sejam



 
 
aqui venho sem alarido
uma quadra vos deixar
e fazer-vos um pedido
se querem acompanhar.

dê do talento as provas
importa é que se vejam
venham as boas novas
que apreciadas sejam

que apreciadas sejam
tragam o sol nas veias
se os amigos as desejam
venham trovas com ideias

em plena e criativa idade
para trovar não há velhos!
há gente com muita saudade
do que lhe nega os espelhos


 assim não quero ficar
cada dia renasço, procuro
do caminho ficar no limiar
olhar o sol por cima do muro

para não me queimar...
entaipada trago a vida
se o olhar me embaçar,
lembro a vida já vivida.


não deixando lamentos...
digo adeus à revolução...
liberdade só de pensamentos
cravo vermelho só no coração
 

é o que faz mal ao coração
põe-no em imensa negrura
os sonhos pra sempre se vão
resta a recordação e ternura

 
devem talvez ser olvidados
não chorar p'lo que não veio,
alma e coração renovados
livres de qualquer anseio

para bater sem parar...
as mãos feitas para o pão
que a voz não se vá calar!
sempre que tenha razão

dar razão a quem merecer
o fizeste à trova que leste
sei que hás-de compreender
por isso esta escreveste...

falando com o coração
traz à trova segurança
quem lê tem a sensação
vale a pena ter esperança


porque não quer o sofrer...
sonhos amamentando vai
e se a tristeza romper?!
a alegria mirra...não cai!



profunda gostosa emoção...
recordar velhas melodias
e ter a letra sempre à mão,
ah! saudades criam fantasias.


pelo seu sentir tão puro...
saem da minha solidão
quadras pensadas no escuro
sem caneta ou lápis à mão.

a hora não se repete
coração não tem remédio
passa uma passam sete
e tu mergulhado em tédio


trovando para te amar...
seja cedo ou seja tarde
com o coração a palpitar
brota o sonho de verdade
 
 
só nos meus olhos tu moras
moras tu e mais ninguém...
brilham eles se tu choras
só choram por ti meu bem
 
ouço-o agora melhor
bate, bate sem parar
bate por ti meu amor
não cansa de te amar
 
 
deste-me à vida seu calor
olhando-te logo percebi!
enxuguei a lágrima do olhar
e agora só penso em ti...

meu coração tem bravura
no amar não se confunde
deixa-se render com ternura
deixa que o amor o inunde.

não me mintas por favor
quero viver com verdade
podes não ser o meu amor
mas trago de ti saudade...


só querendo te amar...
sendo amor de lealdade
acreditei  me ías esperar
vejo  que não é verdade
 
seguindo este caminho...
rezo no altar da tua boca
assim não estás sozinho
tens minha língua devota
 
de brincar de trovar
que brincadeira tão tola
prefiro antes cantar...
assim como canta a rola.
 
natalia nuno
 
estas quadras, são um pouco ao desafio,  às quais um outro poeta responde.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

loucura a minha





aonde quer que eu esteja
tempo sem dono me segue
nem a esperança benfazeja
lidar com o tempo consegue

nem onde quer que eu vá
o tempo me deixa em paz
nos intervalos de cá e lá
esquecê-lo não sou capaz

não sei que me quer dizer
seja inverno ou seja verão
esta interrogação faz doer
é de arrancar o coração...

não deixa de me espreitar
este tempo intempestivo
passo a vida a discordar
mas é com ele que eu vivo.

tempo não me deixa saída
sempre onde quer que esteja
anda sempre de mão estendida
maldito este tempo seja...

natalia nuno
rosafogo

domingo, 18 de agosto de 2013

conversa fiada...




ao longe cantam cotovias
pressentem o céu cinzento
cinzentos são os meus dias
povoados de desalento...

nasci em lençol d'algodão
e dali segui caminho...
pode vir a morte então
sigo em lençol de linho

é triste a minha tristeza
e melancólico meu canto
do povo trago a nobreza
nos olhos trago o pranto

os sonhos vêm mentindo
o tempo sempre desdenha
aquilo que estou sentindo?
névoa que vá e não venha!

a vida tem muitas cores
verde esperança, azul céu
dá e leva-nos amores
coitado de quem os perdeu

ponho versos sobre a mesa
que fiz sem saber porquê
nada valem tenho certeza
são um simples não sei quê

são de menos importância
falam de tudo e de nada
infantis ...falam de infância
ou de conversa fiada...

natalia nuno
rosafogo




sábado, 17 de agosto de 2013

deixa a chama atear...



minha alegria é a chama
que sinto no teu olhar
se teu coração me ama?!
deixa a chama atear...

reinvento minha alegria
desventura em mim mora
alegria há muito não via
mas é minha nesta hora

não a vejo em nenhum lado
a procuro em meu redor...
anda o coração num bailado
querendo-te ao lado amor

se flores recém colhidas
morrem à mingua de água
minhas pálpebras descidas
encobrem meu rio de mágoa

não sei se a vida me vale
ou eu valho nesta vida
talvez teu coração me fale
o quanto sou pra ti querida

abra-se então uma porta
ou tão somente uma janela
a vida ainda não está morta
quero entrar de novo nela.

natalia nuno
rosafogo

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

nem sei porque aqui vim...



hoje não estou sofredora
entrou-me o sol p'la janela
deixou-me tão sonhadora
que a tristeza esqueci dela.

ser Poeta é cantar o pranto
o ciúme, amor e a beleza
trazer na boca só  canto...
e no coração a pureza...

cantar à flor de laranjeira
à madressilva, ao malquequer
e numa  canção brejeira...
cantar tudo o que quiser...

canto agora o sol e a salva
canto às silvas de madrugada
que o cantar é que nos salva
desata a vida que anda atada

desta vida  me despeço
nem sei por que aqui vim!?
palavra a palavra  eu teço
rosário que rezo por mim.

natalia nuno
rosafogo





quarta-feira, 14 de agosto de 2013

palavras soltas...



palavras deixo a medo
no peitoril da janela
faço delas um enredo
a vida me enreda nelas

voo acima do nada...
no sonho é bom de ver!
trago a vida enclausurada
entre nascer e morrer.

leva-me a vida vencida
dia e noite são companhia
sigo de cabeça erguida
outra vida não queria...

meu fardo é tanto pensar
no amanhã e depois...
diz o povo a aconselhar
não pôr carro à frente d' bois.

minha vontade é imperiosa
e escrevo na hora certa
se a lembrança é saudosa?!
já o coração se me aperta.

já me queixo do inverno
sou folha solta ao vento
na alma o frio eterno
na memória esquecimento

o verão que era inofensivo
por pouco não tenho morrido
se na vida morta ...eu vivo!?
viver assim faz sentido?

natalia nuno
rosafogo

Setº2006, 18




terça-feira, 13 de agosto de 2013

não me esperem...que não vou



o ritmo dos meus dedos
que dançam endiabrados
só não contam os segredos
em mim trago guardados

anda a roer-me o juízo
o pensar nos meus pecados
que passe a insónia preciso
trago os sonhos espantados

amor vou cantando a medo
e a saudade é meu penar
assim neste abandono ledo
de mais uma noite a sonhar

lá vem outra alvorada
cada manhã é esperança
nasce o dia... luz espelhada
à memória vem lembrança

andam sonhos foragidos
como aves imigrantes
sonhos novos esquecidos
outros velhos já distantes

não esperem que não vou
não exijam mais coragem
se o coração se quebrou
a vida está de passagem.

natalia nuno
rossafogo


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

palavras que alcanço





ouço o murmúrio distante
infinita é  essa nostalgia
um queixume inquietante
exalta em mim noite e dia

um baloiçar de loureiros
uma brisa que vai correndo
olho o astro, os primeiros
raios de sol, vão nascendo

em mim palavras são fonte
germina a minha inspiração
não sei onde, lá no horizonte
loucura poética, apenas visão

olho os espelhos adormecidos
espelhos que hão-de esperar
quando morrerem os sentidos
não vão mais poder-me tocar

natalia nuno
rosafogo

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

lembranças floridas



tão belas eram as alvoradas
e o tempo um fardo dolente
tempo difícil, bocas caladas
a rota, caminhar em frente

pobres ilusões floridas
caminhos... deixaram nada
tantas histórias esquecidas
e no corpo a carne cansada

passam homens e mulheres
permanecem nos meus olhos
p'los campos sem quereres
da vida colhem abrolhos

humilde como outra qualquer
aldeia das tardes fragantes
onde cresci e me fiz mulher
onde deixei os sonhos distantes

o vento me traz a tua nostalgia
com ela me sinto enfeitiçada
num canto dolente canto alegria
nas lembranças me sinto retratada.

natalia nuno
rosafogo


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

outro tempo...




trago o gosto da distância
e o cheirinho na memória
lembro tudo da infãncia
das lembranças faço história

lembro a terra dura de verão
janeiro que tudo embranquece
saudade dos meus no coração
da aldeia que jamais se esquece

lembro do burro indolente
andando à volta da nora...
lembro toda a minha gente
e o esquecimento me apavora

lembro os cantos da casa
lembro os quadros na parede
pequena eu...passarinho sem asa
lembro ída ao poço matar a sede

lembro a horta e o rio correndo
lembro a eira e o lagar
o moinho, a mó moendo
lembro as moças no rio a lavar

recordo o tempo que esgotou
o mundo é agora diferente
valores são de quem arrecadou
não há gente, como a minha gente

recordo o tempo... já não existe!
lembrança me possui e domina
e é no silêncio que ela insiste
trazer-me à memória a menina

de pequena corria na rua
as quadras eu própria cantava
sonhava com a chegada da lua
assim o sonho se agitava.

tempo não volta e tudo acabou
tudo é bonito na minha saudade
logo a mulher outro tempo chegou
deixou a aldeia vive na cidade.

coisas que não sabemos explicar
sinto ainda em mim gotas de pureza
com ardor sei ainda a terra amar
enraizada em mim esta certeza.

natalia nuno
rosafogo

setº 1999


terça-feira, 6 de agosto de 2013

palavra amiga




perde-se na sombra o rosto
coroado de cachos de uvas
lamparina apagada sol posto
qual sol às primeiras chuvas.

a face nas mãos apoiada
com os olhos tão atentos
recordo como era tão amada
hoje os dias tão cinzentos...

afiguro-me a desconhecida
sei que falta, sei bem o quê
de lembrá-la estou esquecida
esmagou-a o tempo já se vê.

sou diferente a cada hora
meu corpo é terra baldia
para ser como fui outrora?
ah! quem de mim lembraria?

ainda que a vida me iluda
e o tempo me persiga...
agora já nada muda...
só a palavra é minha amiga.

natalia nuno
rosafogo




domingo, 4 de agosto de 2013

místico badalar...



ouço uma longa toada
badala o sino indolente
marca com voz arrastada
a breve vida da gente...

hora a hora badalando
sempre a mesma melodia
nossa vida vai marcando
ao toque da avé-maria

não pára, nem adormece
noite e dia a cantilena
pobre sino até parece
voz austera, mas é serena

batem aldraba da porta
quem será a esta hora?
aragem fria que corta,
ou a solidão noite fora?

talvez o vento na ramaria
a dor de mim se apodera...
candeia o serão não alumia
inverno, lá se foi a primavera

dobram os sinos a rigor
nas horas boas e más
há quem viva  com ardor
a mim já tanto se me faz.

hoje chegou-me a saudade
daqueles que partiram já
tocou o sino com vontade
chorei de vontade d'os ter cá.

a vida acaba na morte
eu já morri quantas vezes!
mas Deus lá me dá a sorte
de enfrentar vida e revezes

ando de saudades abalada
e quantas saudades lá vão
da juventude encantada,
quando entreguei o coração

toca o sino toca a vida toda
toca, toca e não descansa
toca no dia da boda...
e quando baptiza a criança.

sua história nunca finda
já cá estava viu-me nascer
velhinho porém ainda,
há-de anunciar meu morrer.

está lá no cimo, alto porte
todos o olham sobranceiro
anuncia a vida e a morte
anuncia quem vai primeiro.

rosafogo
natalia nuno

quadras de 1999 (09)






sábado, 3 de agosto de 2013

nada sou por ora...



já o silêncio se adensa
dobro vida com brandura
vibro com a tua presença
reparto contigo ventura

fui alvorada, sou poente
gargalhada...soluço agora
sou foz, já fui nascente...
tudo e nada sou por ora!

sou feita de pedra e cal
sol a ficar na penumbra
à vida não quero mal...
pois ainda me deslumbra

tempo a chamar por nós
e o silêncio nos assedia
ignoremos o tempo atroz
que nos usurpa mais um dia.

natalia nuno
rosafogo



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

só resta a saudade



nesta hora...amor
calaram-se as bocas,
sem beijos nem calor
sem palavras loucas

arranquei um a um
sonhos de verdade
fiquei sem nenhum
só resta a saudade...

toda a noite esperei
horas frias caindo
quando pra ti olhei
lá vinhas... sorrindo

dias são passados
os que restam poucos
os sonhos parados...
nossos ouvidos moucos

são de finos panos
poemas que te faço
são outros os anos
já é outro nosso passo

sou corrente de ouro
presa ao bolso trazes
no coração o tesouro
teus sonhos fugazes

natalia nuno
rosafogo


cada um é como é ...



As palavras não usei
Ou as usei com nudez
Quando delas precisei
Para te dizer... talvez!

Velha herança d' algum dia
O amor que está a morrer
É ouro...prata...melancolia
Pão de trigo a endurecer.

Aos meus lábios o sabor
Do beijo que sei ser o teu
Como água da fonte, rumor
Fruto que ao sol amadureceu!

O que era redunda em nada
Sonhos são chama ao vento
Mas trazem me bem enganada
Sobre as ilusões me sento.

É tempo de alargar o passo
Quero chegar p'los meus pés
Da Vida falta um  pedaço
Meu sonho é como as marés

Era pedra o que eu amava
Coração de tanta dureza
Houve lágrima derramada
Não haverá mais com certeza.

Quem dera ser  talentosa
Ou quem sabe talvez rainha
A vida não foi tão generosa
Fui em tempos princezinha.

Fico a meditar meu DEUS
Nessa cruz tão pesada
Andar o pão a mendigar
na terra por ti abençoada.

No peito soluça o coração
Já trago os pés a sangrar
Sofrem os que não tem pão
Sofro por não ter que lhes dar.

Vim aqui prá reinação
Tal qual toda a gente
Cheguei cheia de ilusão
E vou-me embora contente.

Assim a marcha não pára
Então alguém que me siga
Que alegria é coisa rara!
Venha já outra cantiga.

Então vamos para a frente
Vamos, vamos caminhar
Tudo marcha minha gente
Deixem a alegria passar.

Eu cá nasci graciosa
Mulher de muita fé!
Agora não sou formosa
Cada um é como é!

estas quadras são quase mais velhas do que eu...são simples quadras soltas, nem faço ideia se por aqui já estarão, mas hoje ao reler velhos escritos, julgo tê-las em qualquer outro sítio menos aqui.

rosafogo
natalia nuno