domingo, 11 de dezembro de 2016

meu mar...trovas soltas



rebenta a maré na praia
como a vida em ascenção
talvez a esperança não caia
numa infinda escuridão...

bate a água no rochedo
no olhar a interrogação
abandona-me a fé, e o medo
faz tremer-me o coração...

todo o mar da nossa vida
num esforço inconsciente
quer-nos a vida compassiva
até que a morte nos enfrente

submerjo na agitação do mar
na maré que à alma assoma
sem meu queixume revelar
vem a morte...logo me toma!

já o meu olhar me foge
o dia estonteia-me a mente
a endoidar-me o dia d'hoje
vem dor maior de repente...

meu mar morto m' atordoa
nas vagas horas de solidão
o murmúrio que d'mim soa
é de choro ou de aflição...

então morrer por morrer
sejas tu mar que me levas
pra não ter que envelhecer
e ver meu rosto nas trevas

natalia nuno
rosafogo










sábado, 26 de novembro de 2016

trovas...sobressaltos



trago algumas cicatrizes
dureza q' a vida me deu
trago também dias felizes
quando ela me estremeceu

soam ventos, tempestades
que a vida é também dura
mas hoje trago saudades
dos tempos de m' ventura.

palpita a vida em meu ser
nada há que não defronte
do sol- pôr ao amanhecer
mil sonhos no m' horizonte

já uma lágrima me cai
dos olhos... flor silvestre!
e eu sei lá, até onde vai!?
o viver que inda me reste

tenho medo Senhor, medo,
negro vulto se me aflora
já a vida não é segredo
mas a morte acerta a hora

e meu corpo não entende
e tem por ela tanto pavor
que só esquecê-la pretende
pedindo-te ajuda Senhor

natalia nuno
rosafogo
quadras escritas em 1986

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

folhas caídas...



folhas caídas é outono
e é outono no m' destino
caem folhas ao abandono
meu destino não domino

ouço uma voz q' se eleva
como o cantar da cotovia
mas o meu dia é de treva
e a morte já me espia...

a vida então se distancia
sonho faz de mim escrava
primavera q'então floria?
o tempo em mim apagava

deixo um suspiro quebrado
como grito de dor profundo
o passado é já passado...
na mente é inda meu mundo.

faço do m'olhar um navio
q'destes meus dias m'afaste
trago a vida por um fio...
tempo, dela me afastaste!

nesta madrugada estranha
chora o vento e choro eu
se raio de sol não me banha
surda a vida me esqueceu!

a vida é rio que se desvia
sigo-a agora com cautela
pobre, morta quase se esfria
a alma... ao encontro dela.

natalia nuno
rosafogo




segunda-feira, 31 de outubro de 2016

pássaro sem norte



meu semblante se altera
perante o vazio do papel
o coração vazio espera
e há arrepios pela pele

estas linhas m'corroem
minha memória inventa
que as dores q'me doem
são dores q' a tristeza tenta

fumo do sonho m'invade
vive em mim... livre sorte!
brasa da vida a saudade
pássaro razante sem norte

a sonolência q' se instala
é gadanha vagabunda
que na memória resvala
deixando angústia profunda

tudo foi e o que me resta
é o fel de alguma ruga
esperada sentença esta
para a qual não acho fuga

mente-me a noite e o dia
calo-me perante a sombra
sinto o peso da melancolia
meu caminho se ensombra

expectantes meus sentidos
sob os clarões do instante
esquecem momentos vividos
vivem este tempo agitante...

natalia nuno
rosafogo




terça-feira, 18 de outubro de 2016

fantasias...trovas soltas



no calor que há no beijo
há uma força de querer!?
que é fogo e passa a desejo
desejo, na boca a crescer.

neste meu sonho indeciso
sonho que é vagabundo
é de amor que eu preciso
a melhor coisa do mundo

se é frígido o teu olhar
pode o coração aquecer?
teus olhos da cor do mar
jamais os vou esquecer!

que venham momentos
de sonho e desvario...
esquecidos os tormentos
à vida... eu sempre sorrio

fortalecemos no sonho
é um bálsamo para a dor
saudade sonho risonho
quando lembro nosso amor

hoje lembro com gosto
o que dantes me alegrava
ventura trazia no rosto
tanto de  ti  eu gostava!?

quando se é muito querido
o amor nos leva à palma
mas se esse amor é fingido
intenta tirar-nos a alma...

 vive-se como  sonhador
da saudade e da lembrança
a pulsar no peito o amor
como da flor a fragrância

natalia nuno
rosafogo

quadras de 02/006 Sta Justa
escrito na aldeia

sábado, 15 de outubro de 2016

aos meus olhos mortais...soltas





palavras molhadas de ternura
gritam na mente eternamente
saudade é minha poesia pura
pejada de sonhos p'la frente...

em mim sempre sol nascente
meus olhos se rendem ao mar
céu sem nuvens, triunfalmente
e  meus anos sempre a lembrar

como se brilhasse a mocidade
e, airosa ... não perdida a graça
é como se fosse real esta saudade
e viver de novo tudo q' ela abraça

passou o tempo e s' mais demora
vem agora mostrar-me a velhice
eu minto verdades e sou por hora
desatino, mesmo sendo parvoíce

o tempo tudo destrói e arruina
mas não vou jogar a vida fora
sou rouxinol, cantando menina
no semblante o brilho da aurora

da tristeza eu quero viver isenta
não encontro nela m' companhia
só amor meu coração movimenta
pois q' sem ele minha alma esfria

natalia nuno









segunda-feira, 3 de outubro de 2016

sonhos atados...soltas



Guardo palavras num frasquinho
como se fossem doce ou vinagre
as vou espalhando pelo caminho
vivendo esp'rança em tempo agre

e assim entre beijos inacabados
o olhar repouso, acalmo o desejo
trago os sonhos com nós atados...
e a esperança na promessa d' beijo

é já na hora tenra da madrugada
q' gritam os pássaros com ternura
na luz que avança leitosa azulada
a gente se ama, é nossa a ventura

amor me fio, janelas escancaradas
deixam entrar os ventos da aurora
e as vestes p'lo chão amarrotadas
é hora do amor... é do amor a hora!

Tudo que tem sombra é sombrio
quando não se alcança o sol à mão
E a vida ás vezes presa por um fio
e aí nos amarra d' dor e compaixão

no pomar tão brilhantes as cerejas
nas moitas sol aceso nos azevinhos
brilham mais m' olhos se os cortejas
acolho eu o cortejo dos teus carinhos

natalia nuno
rosafogo





brejeiras... soltas




que eu não te veja!
nem te sinta sequer
lábios que outra beija
sendo eu tua mulher?!

não posso adiar amor
amor que em mim arde
não tarda não haja dor
n'coração se chegas tarde.

ainda que a noite pese
e a aurora inda demore
talvez o terço inda reze
pra q' coração não chore.

podias ficar comigo
foi essa a tua promessa!
mas se não és meu amigo
volta lá, vai atrás dessa...

natalia nuno
rosafogo

frio e lonjura...



cai a chuva nos loureiros
descendo sobre a folhagem
passaram tantos janeiros
passou também m'imagem

escuto o alento da terra
já a tarde se desvanece
na minha alma se enterra
a mágoa que não esquece

tua mão amiga no ombro
quando cresce a nostalgia
e eu olho com assombro
o findar... de mais um dia

dia que comovido chora
choram as águas do rio
não vejo chegada a hora
de alcançar o casario...

de repente uma janela
numa penumbra ferida
não está quem estava nela
levou-a a morte da vida

loureiro agita a ramagem
e olha o rio impaciente
lá deixei a minha imagem
com um sorriso pungente...

natalia nuno
rosafogo

aldeia 20/09/2002




sexta-feira, 30 de setembro de 2016

pássaro livre...soltas



rosto moreno. trigueiro
de rainha tinha a altivez
não teve amor c' primeiro
quiméricos sonhos talvez

era como pássaro livre
com sorriso de sol puro
«d' amar ninguém a prive
sem amor tudo é escuro»

seus olhos da terra a côr
sempre a olhar mais além
no coração trouxe o amor
e traz a saudade também

tem inda braços de apertar
quem aconchega na vida
cansados de tanto remar
são  cais de despedida

lembra o vestido de noiva
todo branco de candura
lembra quando era moçoila
só o sonho inda perdura...

abre-se mágoa das mágoas
q' é do amor transbordando?
no rio mira-se nas águas
de saudade, vai murmurando

alma saudosa de vida e alegria
um poema de luz e verdade
dura é a solidão do dia a dia,
da vida único prémio, saudade.


natalia nuno
















quinta-feira, 29 de setembro de 2016

quimeras...soltas



Dou passos cautelosos
não vá o soalho estalar...
teus olhos eram formosos
os hei-de sempre lembrar.

Deixa-me olhar-te bem
olhar-te bem e de frente
as emoções são também
fruto d'alma da gente...

A dor sempre vem e vai
tão firme é no coração!
Dor que de lá não sai,
dor que doi até mais não.

Foi-se idade das quimeras
dos sonhos, das fantasias
foram-se tantas primaveras
cartas d'amor m' escrevias

viçosos como as flores
desfeito o nosso rasto
ontem tudo eram amores
hoje temores eu afasto...

mas teimosa inda escuto
do coração a verdade
é pelo sonho que luto
a luta me vem da saudade

trago na herança dos anos
um caudal de só de ilusões
as quimeras e desenganos
doendo-me as recordações

natalia nuno
rosafogo 




quarta-feira, 28 de setembro de 2016

primeiras sombras... trovas soltas




está à porta da saída
como história q' esquece
para traz ficou a vida
já a força não aparece

mariposa que sonhou
voar por outros ares
veio o tempo e lhe falou
já é tempo...de parares!

exuberante flor d' jardim
- crepitante girassol...
com o aroma do alecrim
esparramado ao sol...

fabulosa moeda d'ouro
ainda traz majestade
guarda nela o tesouro
aprisionando-o na saudade

como se não terminasse 
o calor da sua chama
dela o amor se acercasse
ter pra sempre quem ela ama

és tua eterna inimiga
diz o espelho que a acusa
e diz-lhe em ar de cantiga,
o que com angústia recusa

agora que nada acontece
há vazio carente de vazio
porque  a vida anoitece...
sepultada em silêncio e frio.

natalia nuno






segunda-feira, 26 de setembro de 2016

sopro de sombras...trovas soltas




se um barco me levasse
cruzava mãos no regaço
e se o mar me embalasse
adormecia no teu abraço

trago olhos naufragados
de tantas lágrimas verter
no meu rosto  traçados
os sinais deste sofrer

amanhã quando morrer
vais dizer: pobre coitada!
levou a vida a escrever
vai só e ...não leva nada

se uma estrela se apagar
os sinos tocarem dobres
se a morte me embargar
versos deixo mais pobres

e o drama de não saber
e de nem sequer supôr
 amarras me irão prender
se  te deixo por cá amor.

já ouço mochos calados
sussurra o vento. mistério
soam ecos ensombrados
é a morte...não há remédio

natalia nuno


rosafogo

domingo, 25 de setembro de 2016

palavras...trovas soltas



vou contendo o meu brio
dia a dia m' olho ao espelho
trago a vida por um fio?
ou é o espelho que é velho?

como uma onda levantada
eu nasci para ter voz
trago uma sensação amada
que levo da nascente à foz

a vida sempre se renova
não obstante o que mudou
daí que me sinta sempre nova
não a que o espelho m'mostrou

mas na mente aquela incerteza
que me fala na sua mudez
que me causa certa estranheza
que é preço que pago...talvez!

amo a liberdade e amo a vida
e até à morte assim vou ser
num fogo alto e destemida
pagarei o preço d'sonho a arder

sinto a mordida da poesia
incrédula observo-a c'atenção
o sangue que a sente quem diria
é esperança que aponta c' precisão

natalia nuno




quarta-feira, 31 de agosto de 2016

coisas de menina...quadras soltas



trina lá por onde nasci!
teus trinados eu ensaiei
foi com eles que acordei
e a liberdade eu aprendi

quero ouvir a sinfonia
o teu cantar de veludo
quero cantar-te em poesia
quero nada, quero tudo.

nos beirais da minha rua
fizeste ninho que eu sei
o vento o sol e a lua...
tantos sonhos eu sonhei!

tantos perfumes esquecidos
tantos céus já distantes
tantos pensamentos puídos
gotas de orvalho...diamantes!

ramos de folhas despidos
folhas que o vento levou
tantos momentos esquecidos
que importa?! se já não sou!

natalia nuno
rosafogo

domingo, 21 de agosto de 2016

saudade viva...trovas soltas



escrevi teu nome na areia
palavras que o mar bebeu
chegou a noite e a lua cheia
triste, num choro rompeu...

escrevi cartas e enviei
e uma ou outra fotografia
no cobertor d'amor enrolei
chorei de noite e de dia...

escrevi e  o vento esperou
enquanto lágrimas escondia
de rugas meu rosto sulcou
de pena escrevo, dia a dia

escrevi e beijei-te a mão
e sonhei o sonho inteiro
o tempo corre e o coração
a morrer será o primeiro 

escrevi sobre tudo e nada
só p'lo prazer de escrever
para quê  ficar calada
se dou tudo só pra te ver...

- enlevo triste este meu
é tudo que posso dizer
se amor inda não morreu
morrendo, volta a nascer.

e às horas mortas do dia
escrevo-te eu na solidão
tentando vou com poesia
entregar-te meu coração


natalia nuno
rosafogo

10/02/2006 na aldeia.
15 horas da tarde o sol de inverno aqui por perto, e eu fazendo trovas e mantendo-as na mente
dado que nem possuo papel e caneta...




sexta-feira, 8 de julho de 2016

saudade é lema...soltas



o que se forja na desolação?
ou no silêncio obscuro....
ouvindo reclamar o coração
p'lo tempo q' sempre conjuro!

na mente rodopiando s' cessar
interminável sombra crescendo
que espera a cada pulsar...
agravar a dor de estar sofrendo

impõe uma solidão extrema
o pensamento roda abstraído
faço da saudade meu tema
escrevo sobre passado vivido

cerro dentes o tempo desafio
o coração não existe arranquei
desço à loucura...rodopio
com a morte contrato selei

refreei sentimentos e ilusões
revi completa paisagem, vida
esqueci rancores e desilusões
sou tempo com vida reduzida

é a sede erguida que me sacia
rege-me uma paixão suprema
enquanto a saudade me vigia
e eu faço dela meu lema...

natalia nuno
rosafogo








sexta-feira, 1 de julho de 2016

soltas...trinados



cortei o fio que m'atou
a vida à infelicidade
e com sorriso aqui estou
lembrando me c'saudade

persigo aquele norte q' dá
até um calmo sorriso
esqueço o perigo ando por cá
renuncio à morte...preciso!

persistente sonho tenho
que nem consigo perceber
trago-o detrás donde venho
levá-lo-ei até morrer...

aproximei-me da porta...
- olho verde na fechadura
uma ténue voz quase morta
eu alcancei com ternura...

era a menina que m'sorria
lá no baloiço sob estrelas
quase a esfumar-se parecia
mãos a acenar, eu a vê-las

corpo precoce de mulher
veio trancar o portão...
tanto lhe queria dizer...
mas, silenciei o coração

verde  canta a primavera
há cânticos, pássaros no ar
engendro palavras de espera
até o tempo se desvendar...

natalia nuno
rosafogo





terça-feira, 21 de junho de 2016

desilusões...trovas soltas



se um barco me levasse
cruzava mãos no regaço
e se o mar me embalasse
adormecia no teu abraço

trago olhos naufragados
de tantas lágrimas verter
no meu rosto  traçados
os sinais deste sofrer

amanhã quando morrer
vais dizer: pobre coitada!
levou a vida a escrever
vai só e ...não leva nada

se uma estrela se apagar
os sinos tocarem dobres
se a morte me embargar
versos deixo mais pobres

e o drama de não saber
e de nem sequer supôr
 amarras me irão prender
se  te deixo por cá amor.

já ouço mochos calados
sussurra o vento. mistério
soam ecos ensombrados
é a morte...não há remédio

natalia nuno
rosafogo


drama...trovas soltas



se um barco me levasse
cruzava mãos no regaço
e se o mar me embalasse
adormecia no teu abraço

trago olhos naufragados
de tantas lágrimas verter
no meu rosto  traçados
os sinais deste sofrer

amanhã quando morrer
vais dizer pobre coitada
levou a vida a escrever
vai só e ...não leva nada

se uma estrela se apagar
os sinos tocarem dobres
e a morte me embargar
versos deixo mais pobres

e o drama de não saber
e de nem sequer supôr
 amarras me irão prender
 deixo-te por cá amor...

já ouço mochos calados
sussurra o vento. mistério
soa um eco ensombrado
é a morte sem remédio

natalia nuno
rosafogo


sexta-feira, 17 de junho de 2016

óh terra se te não via...



esse resplendor de esperança
que a todos ainda nos cabe
vem de longe desde criança
da m' felicidade é a chave

inda a terra é quem me fala
numa subtil melancolia...
e a saudade no peito se instala
a toda a hora da noite e dia

nos meus olhos a água pura
no peito as sombras do estio
cruzo o verde com ternura
os pássaros trinam com brio

canção de pássaro nostalgia
a frescura do vento nascendo
óh terra se te não via...
fugidia  m' alegria...morrendo.

incendeiam-se as cores no céu
erguem-se salgueiros ao eterno
vem a noite é escuro de breu...
derramam as chuvas é inverno

e os sussurros no salgueiro
plumagens que se agitam 
a calhandra, o melro primeiro
e as rãs  que no rio gritam...

ecos em mim deixou a terra
sem nunca se terem apagado 
entre m´pálpebras se encerra
densas imagens do passado

de repente é dor que percorre
um caldal de tempo na memória
a eterna saudade que não morre
lembranças em tumulto, m' história.

natalia nuno





terça-feira, 14 de junho de 2016

delírio...trovas soltas



a quem amo e amarei
não vou dizer a ninguém
só ao Santo confiarei...
trago m' olhos em quem
cansada de não achar
lá lhe peço volta e meia
um rapaz me há-de dar
peço-lhe eu à boca cheia
pra sempre minhas penas
a ele lhas hei contado...
é claro...coisas pequenas!?
d' agora e do passado...
o Santo de tão cansado
de lhe cobrar tanta fadiga
responde...ai mas que fado!
cala-te lá rapariga...

natalia nuno

quarta-feira, 25 de maio de 2016

sem amarras...quadras soltas



ao sabor do vento norte
deixo-me ir neste cansaço
à espera de melhor sorte
vou borboleta e esvoaço

sou como flor sem espinhos
margarida ou malmequer
no alpendre trago ninhos
e beijos de quem me quer

esta fome de primavera
q' dos olhos agora me cai
é a ânsia de quem espera
amor que vem e logo vai

amores tive, e me perdi
amor minha dor não cura
só a uma raiz me prendi
com este nó de ternura

sentei-me num verso triste
onde a saudade chegou
a lembrar que nada existe
tudo para trás ficou...

natalia nuno
rosafogo
aldeia 19/01/2004






domingo, 8 de maio de 2016

estrela do meu olhar



o meu sonho deu à terra
colho lá papoilas e pão
o nascer d' águas encerra
meu sonho na perfeição...

corre o rio para o mar
corre sem freio nem travão
em ziguezagues vai a cantar
passa a dourar-me a emoção

fraqueja o sol à tardinha
fica a sombra mais à frente
com rapidez surge a noitinha
e a estrela ao meu olhar rente

de tanta que é a proximidade
fico-me por aqui nos passos
traz-me andorinha a saudade
feita de ternura e abraços

passo a praça, desço ao poço
e não olho mais para trás
na praça ficou o moço
a dourar-me o coração de paz.

parei no coração da ponte
vi a roupa nos estendais
ía o sol, longe, no horizonte
colhi papoilas nos trigais

subi agora à Banda d'Além
olhei para todas as casas
última luz do dia, ninguém!
só os pássaros bateram asas

minha paisagem, meu fulgor
já tudo são agora escombros...
não m' apercebi d'algum rumor
a sós a mãe de xaile nos ombros

era sonho, pássaros calados
era o desdobrar do vento norte
a trazer-me mil recados
partiram confrontando a morte

confrontei então meu coração
q' ainda assim ficou contente
e com eterna comoção...
sonhei, voltei ver a minha gente.

natalia nuno
rosafogo



quarta-feira, 4 de maio de 2016

trovas soltas...já tive asas e voei





fiquei-me ali a uma esquina
a somar umas vagas horas
olhei-me era ainda menina
recordei brincos d'amoras

a manhã era de poesia
e eu brinquei até à tarde
fui menina neste dia
logo me veio a saudade

escrevi meu nome no chão
com uma pedrinha de giz
depois desenhei um coração
o que, à terra tanto quis...

mais que sombra não era
mas tinha asas e voei...
tinha os meus à minha espera
mas era sonho e chorei

meu nome já não é papoila
desfolhou-se por entre trigo
nem menina e nem moçoila
sou mulher de tempo antigo

mas me lembro de ter sido
meus olhos se lembram bem
a menina dum tempo ído
de entre o rio e a Banda d'Além.

e sempre que o sol sorrir
meu coração reaquecer
à minha memória há-de vir
o som do moinho a moer

encho as mãos de lirismo
elas que cantam e choram
há dias em que tanto cismo
que saudades não demoram

fico como uma ave lenta
sem vontade de voar...
mas o coração acalenta
que um dia hei-de voltar

faço bravos meus versos
como poeta amo a terra 
trago-os  aqui, ali, dispersos
já p'lo mundo andam na berra

natalia nuno
rosafogo

segunda-feira, 11 de abril de 2016

ao rio da minha aldeia...



Almonda quando passas
voa o pássaro pra te ver
toda a aldeia tu abraças
passas por ela a correr

vens correndo da nascente
por aqui não vais parar...
trazes grandeza no ventre
que levas direito ao mar...

ponho os olhos na vidraça
e ainda sonho contigo
era moça cheia de graça
amei-te pra meu castigo

olhámos o céu perdidos
nesse reino q' nos pertence
e tantos sonhos paridos...
já a memória me vence.

vais entre pedras e cansaços
contigo vão sonhos d'água
nada te atormenta os passos
salgueiros te olham com mágoa

lembro sempre da promessa
um ao outro prometemos
talvez um de nós se esqueça
se de saudade... padecemos.

deixo-te palavras de ternura
descobri-me a envelhecer
dá-me da tua água tão pura
não me deixes d'amor morrer

Almonda, olho-te embebecida
rio que corres despreocupado
na corrente da minha vida
levo-te de maresia perfumado.

natália nuno










quarta-feira, 23 de março de 2016

trovas soltas...criança mal amada





tanta dor há no mundo
a dor de mãe é maior!
no seu coração profundo
grande é também o amor

como aguenta um coração
que ao filho não pode valer
a vida é pra ela condenação
ai quem lhe dera morrer...

com um sorriso no rosto
pé descalço e uma bola
sonho é... luar de Agosto
felicidade não se esmola

amigo não tem raça...
no coração traz amor
no olhar a sua graça
ama o outro com fervor

veio ao mundo sem sorte
ao abandono sem mãe
assim também triste a morte
q' vem não poupa ninguém

uns no mundo com tanto
outros cá vêm sem nada
nestes versos  eu canto
a toda a criança mal amada

natalia nuno

soltas...asas no chão




canta o pássaro no ramo
também eu canto à janela
canto à pessoa que amo
e desespero de não vê-la...

voa...voa voa o colibri...
voa também m'coração
desde a hora que te vi
sou mar em ondulação


canta o pássaro no ramo
também eu canto à janela
canto à pessoa que amo
e desespero de não vê-la



adeus ó largo da praça
adeus ó adro da igreja
olho a procissão q' passa
saudosa a lua me beija

 - adeus ó largo da praça
na fonte água cristalina
no largo tão generosa

lá ía eu pequenina...
tão segura e formosa!

em mim com tanto jeito
cantava só pra me ouvir
soava tudo tão perfeito...
que o sol aparecia a sorrir

e a luz nos olhos dava
na aldeia ai que vontade
aldeia que tanto amava
onde cresci em liberdade

natalia  nuno

terça-feira, 15 de março de 2016

flor murcha...




ai se linda, linda fosse
como a rosa na roseira
soprou o vento calou-se
fez dela gata borralheira

era cântaro bem cheio
de luz e claridade...
à memória pena lhe veio
trazer-lhe a ferida saudade

vento faz tremer as folhas
ficam ramos mais tristes
tal como os olhos se a olhas
e com juras d' amor insistes

cavalo alado do vento
da infância traz a brisa
no coração traz tormento
na saudade o que precisa

na sua paz tão fatigada
vai vivendo por milagre
serve para tudo e pra nada
escrevendo diz a verdade

natalia nuno

sábado, 13 de fevereiro de 2016

a rosa...

.



ó rosa que és tão rosa
bela cor Deus te deu
tão bela e tão formosa
q' o cravo d'amor morreu.


sinto o calafrio das flores
e o pranto duma estrela
chorarei quando te fores
saudade hei-de eu tê-la

sensual é tua imagem
rosa, rosa a mais bela
a vida é uma passagem
como o sopro duma vela

com fervente ternura
um abraço é bastante
se e amizade perdura...
não dura só um instante

um miminho sabe bem
venha ele donde vier...
venha daqui ou de além
porque alguém bem m' quer

natalia nuno
rosafogo







quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

tristes...soltas...



mais triste não sei dizer
deixou-me a vida sozinha
não devo eu mal lhe querer
porque só a ela... eu tinha!

olhou-me com olhar cru
meus olhos a chorar ficaram
chorei eu e também tu
p'los tempos que já passaram.

deixei cair minhas mágoas
deixei cair meus pesares
depois de não ter certezas
de ser verdade, me amares

eu sei tu não me mentes...
sou eu que não quero a verdade
sentimentos...descontentes
coisas próprias da idade...

coisas passadas...nossas!
que ainda me fazem sofrer
dos olhos lágrimas grossas
porque hei-de eu merecer?

natalia nuno
rosafogo

esperei...desesperei! trovas soltas



vim ver-te...é meu desejo!
não posso calar a saudade
de volta quero levar o beijo
que te dei na mocidade...

é bem mais, querer o que sinto
saudade é quem me persegue
digo não a este amor, mas minto!
pois que a ele vivo toda entregue

feitiço forte ele me deixou...
além de grande embriaguês
mas se o teu feitiço falhou
eu... não te esqueci de vez...

se por mim tens é desdém
poema triste és tu em mim
feito pra te agradar... porém!?
joguei mal o amor e assim...

amor és tu um sonho feito
vibra em mim intensamente
porque amar-te é meu jeito
minha força...consciente.

se não é amor o que trazes
a esperança se deita comigo
soluços convulsos me fazes
diz ao menos ser meu amigo

natália nuno
rosafogo
14/06/2010
algarve



terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Loucuras...trovas



mas quem me ama é João
já nem sei bem Joaquim
cabem os dois no coração
que dou a quem gosta de mim

já passei maus bocados
com os olhos exaurindo
lágrimas de mares salgados
abatida me estou sentindo

sei agora das duras penas
mas sei da força do perdão
não queiras que te ame apenas
dá-me tu...teu coração...

tanto que eu posso perguntar
porque razão não me amas?!
é estranho esse teu gostar
se nem querida...me chamas!

corpo desnudo, perfumado
e a vida tão curta ainda...
no coração arremessado
este amor que não finda


natalia nuno
rosafogo

domingo, 17 de janeiro de 2016

lembrar...



Ah! Não digam nada, neste instante acabei de surripiar esta foto a uma conterrânea amiga, e então porque é tão importante para mim a foto? Não acham nada de extraordinário pois não? Agora imaginem a imagem de folhas de outono caídas na minha memória já um pouco cegas pela bruma e pela ditadura do tempo...nesta tarde declinante que geme de saudade chega esta imagem aos meus olhos onde passei tantos dias da minha vida, voltei aos mitos da infância radiantes, iluminados, e senti-me alegre com as recordações do velho castanheiro do adro debaixo do qual tanto brinquei ao lenço, à apanhada, e a porta onde entrava despreocupadamente sempre com a ideia na leitura, que era sem dúvida aquilo
que mais apreciava...é um sentimento bem firme o de amar estas pequenas grandes coisas.
aquele pedacinho da janela onde a minha carteira ficava.....fiz um dia uma quadra a 1ª que me lembro de ter feito e que era assim:


minha escola branca e amarela
o adro onde brinco à apanhada
não há outra tão bonita como ela
nem sei doutra assim tão amada...

natalia nuno